Não sei por que eu me preocupo com o que ele pode pensar, já que ele pensa me conhecer muito bem, já adivinhou meus pensamentos e idéias. Não, não penso que o amo ainda, mesmo que nossa história tenha sido forte demais a ponto de não poder esquecê-la jamais, mas com o tempo a tatuagem perde a cor, a faca perde capacidade de cortar, o talo que sustenta a mais bela flor enfraquece, os sentimentos perdem a intensidade e até mesmo um roubo não me causaria tanto medo, já que são coisas tão comuns e fazem parte da vida. Apesar de todo julgamento que fazem a meu respeito, sei que poucos sabem sobre o que sou, o que sinto e o que fui.
Todos sabem que sou filha de mãe solteira. Hoje, um pai não me faz tanta falta, nem sei como é ter um. Fui criada com amor por pessoas que são minha vida. Há tempos atrás teria vergonha disso, pois minhas amigas na escola tinham pai e mãe, menos eu. Eu precisava de alguém que dissesse: filha, cuidado com os homens ou algo do tipo, use camisinha, ou ainda, não saia com fulano. Eu sofri por isso, mas ninguém sabe e ele nem liga, acha que é um drama qualquer. Ele tem filhos que certamente não terão essa mesma reclamação, pois ele os ama.
Todos me vêem como a menina certinha, criada dentro da lei, aquela que vai à Igreja aos domingos e acredita em Deus, porém não sabem que visito centros espíritas e que tinha até um espírito como companhia, parece engraçado, mas eles não sabem nada sobre mim.
Sabem que nasci no interior e que odeio a capital. Sabem que bebo quando saio, mas não sabem que fumo às vezes pra fugir da caretice desse mundo preconceituoso. Sabem que faço nutrição e que gosto do que faço, mas não sabem que dentro do meu cérebro há uma imensa confusão e uma dúvida sem solução imediata.
Sabem que amei alguém da forma mais pura e inocente, mas não sabem que conheci a vida, me apaixonei fulminantemente por outro, que provei o sabor da adrenalina, que vi o ódio e o amor frente a frente, que ouvi músicas diferentes, recebi flores e declarações, que fugi na madrugada, que provei vinhos baratos, que fui ao inferno e voltei, que me humilhei por um sorriso, que disse: eu te amo, que perdi amigos, adulterei a idade, que mudei de ritmo, que quase me suicidei para não ter que ver meu sonho indo embora. Todos viram o quanto sofri por algo que julgavam ser errado, contra as regras, mas ninguém viu que eu fui feliz por um segundo apenas. Ninguém notou que eu pensei em mim quando escolhi a minha felicidade e fui chamada de egoísta, mas ninguém viu quando ajudei, quando estive do lado. É tão mais fácil ver que a janela do vizinho está suja, do que limpar a vidraça da nossa janela. É mais fácil enxergar um cisco no olho do irmão, do que remover a trave que há no nosso olho.
Todos conhecem aquela menina que ri por tudo, que não sabe falar em público, que é ansiosa demais, que toma medicamento controlado, mas ninguém sabe controlar sua própria vida e falam dos outros como se fossem donos da verdade. E quem é dono dessa verdade falsa? Qual é a verdade? As pessoas procuram por ela e mesmo quando alguém fala a verdade, ainda existem dúvidas.
Há um tempo de extravasar e há um tempo de consertar todo o estrago. Acho que este último é o que estou fazendo agora. Estou consertando todo o estrago que causei a mim. Nem sei o que houve em mim. Um terremoto, um furacão, um ciclone. Foi algo que deixou minhas idéias invertidas e cicatrizes difíceis de sarar. Tenho um certo receio ainda de essa “coisa” retornar. Tenho medo de que qualquer ação, um passo sem pensar sequer, me faça cair num precipício da qual não sairei viva.
As pessoas sabem de tudo isso que contei, mas não sabem que sinto agora um imenso vazio dentro de mim que dói mais que qualquer agulha perfurando minha pele e que isso se repete toda noite. Grito contra o travesseiro e durmo chorando, temendo as acusações do dia seguinte. Antes era diferente, qualquer pesadelo que eu tivesse, poderia ligar imediatamente para ele, eu sabia que ele me acalmaria com palavras suaves sobrepostas a uma voz grave. Nas noites de frio, era fácil ir até ele, olhar aqueles olhos pouco caídos, aquele raro sorriso sincero, aquela sensibilidade quase invisível, saber como foi o dia, escutar simples verdades sobre amor e amizade. E agora? Eu nem sei mais quem sou, nem se ainda o amo. Se eu não o amo, por que fico inquieta quando ouço o nome dele? Por que fico feliz quando sei que ele está bem? Por que me magoa saber que ele insiste em me deixar em pedaços? Por que sinto falta dele como se uma parte de mim não existisse mais? Por que acordo com os olhos inchados e a noite pareço criança cujo pai não deu um doce no fim do dia? Por que soluço até meu peito doer? Por que choro até não ter mais como respirar? Por que preciso de calmantes para não sentir isso? Por que estou tentando me enganar de novo?
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
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